LITERATURA – BRASILEIRA


Mês: outubro 2012

  • POEMA DE SETE FACES (Carlos Drummond de Andrade)

    Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. […]

  • Romance XIX ou dos maus presságios (Cecília Meireles)

    Zezé Motta em filme Xica da Silva Acabou-se aquele tempodo Contratador Fernandes.Onde estais, Chica da Silva,cravejada de brilhantes?Não tinha Santa Ifigênia,pedras tão bem lapidadas,por lapidários de Flandres… Sobre o tempo vem mais tempo,Mandam sempre os que são grandes:e é grandeza de ministrosroubar hoje como dantes.Vão-se as minas nos navios…Pela terra despojada,ficam lágrimas e sangue. Ai, […]

  • Segunda impaciencia do poeta (Gregório de Matos)

    Cresce o desejo, falta o sofrimento,Sofrendo morro, morro desejando,Por uma, e outra parte estou penandoSem poder dar alívio a meu tormento. Se quero declarar meu pensamento,Está-me um gesto grave acobardando,E tenho por melhor morrer calando,Que fiar-me de um néscio atrevimento.Quem pretende alcançar, espera, e cala,Porque quem temerário se abalança,Muitas vezes o amor o desiguala. Pois […]

  • Verdade (Carlos Drummond de Andrade)

    A porta da verdade estava aberta,mas só deixava passarmeia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade,porque a meia pessoa que entravasó trazia o perfil de meia verdade.E sua segunda metadevoltava igualmente com meio perfil.E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.Chegaram ao lugar luminosoonde a verdade […]

  • Aceitarás o amor como eu o encaro ?… (Mário de Andrade)

    Aceitarás o amor como eu o encaro ?……Azul bem leve, um nimbo, suavementeGuarda-te a imagem, como um anteparoContra estes móveis de banal presente. Tudo o que há de melhor e de mais raroVive em teu corpo nu de adolescente,A perna assim jogada e o braço, o claroOlhar preso no meu, perdidamente. Não exijas mais nada. […]

  • HINO À DOR (Augusto dos Anjos)

    Dor, saúde dos seres que se fanam,Riqueza da alma, psíquico tesouro,Alegria das glândulas do choroDe onde todas as lágrimas emanam… És suprema! Os meus átomos se ufanamDe pertencer-te, oh! Dor, ancoradouroDos desgraçados, sol do cérebro, ouroDe que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.Com os corpúsculos mágicos do tatoPrendo […]

  • Seu Nome (Vander Lee)

    Quando essa boca disser o seu nome venha voandoMesmo que a boca só diga seu nome de vez em quando Posso enxergar no seu rosto um dia tão claro e luminosoQuero provar desse gosto ainda tão raro e misterioso…Do Amor Quero que você me dê o que tiver de bom pra darFicar junto de você […]