LITERATURA – BRASILEIRA


Tag: Cecília Meireles

  • Motivo

    Eu canto porque o instante existee a minha vida está completa.Não sou alegre nem sou triste:sou poeta.Irmão das coisas fugidias,não sinto gozo nem tormento.Atravesso noites e diasno vento.Se desmorono ou se edifico,se permaneço ou me desfaço,— não sei, não sei. Não sei se ficoou passo.Sei que canto. E a canção é tudo.Tem sangue eterno a […]

  • Romanceiro da Inconfidência

    …Liberdade, essa palavraque o sonho humano alimentaque não há ninguém que expliquee ninguém que não entenda… In Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles Romanceiro da Inconfidência é uma coletânea de poemas de Cecília Meireles (1901-1964), publicada em 1953, que conta a História de Minas dos inícios da colonização no século XVII até a Inconfidência Mineira […]

  • Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência (Cecília Meireles)

    Através de grossas portas,sentem-se luzes acesas,— e há indagações minuciosasdentro das casas fronteiras:olhos colados aos vidros,mulheres e homens à espreita,caras disformes de insônia,vigiando as ações alheias.Pelas gretas das janelas,pelas frestas das esteiras,agudas setas atirama inveja e a maledicência.Palavras conjeturadasoscilam no ar de surpresas,como peludas aranhasna gosma das teias densas,rápidas e envenenadas,engenhosas, sorrateiras. Atrás de portas […]

  • MULHER AO ESPELHO (Cecília Meireles)

    Mulher em frente ao espelho Autor: Pablo Picasso   Hoje, que seja esta ou aquela,pouco me importa.Quero apenas parecer bela,pois, seja qual for, estou morta.Já fui loura, já fui morena,já fui Margarida e Beatriz,já fui Maria e Madalena.Só não pude ser como quis.Que mal fez essa cor fingidado meu cabelo, e do meu rosto,se é tudo […]

  • Romance VII ou do negro das Catas (Cecília Meireles)

    Do negro nas catas Já se ouve cantar o negro,mas inda vem longe o dia.Será pela estrela d’alva,com seus raios de alegria?Será por algum diamantea arder, na aurora tão fria? Já se ouve cantar o negro,pela agreste imensidão.Seus donos estão dormindo:quem sabe o que sonharão!Mas os feitores espiam,de olhos pregados no chão. Já se ouve […]

  • Herança (Cecília Meireles)

    Eu vim de infinitos caminhos, e os meus sonhos choveram lúcido prantopelo chão. Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos, essa vida, que era tão viva, tão fecunda, porque vinha de um coração? E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos, do pranto que caiu dos meus olhos passados, que experiência, ou consolo, ou prêmio […]

  • E o meu caminho começa …

    Não perguntavam por mim,mas deram por minha falta.Na trama da minha ausência,inventaram tela falsa. Como eu andava tão longe,numa aventura tão larga,entregue à metamorfosedo tempo fluido das águas;como descera sozinhoos degraus da espuma clara,e o meu corpo era silêncioe era mistério minha alma –– cantou-se a fábula incerta,segunda a linguagem da harpa:mas a música é […]

  • Romance XXX ou do riso dos tropeiros (Cecília Meireles)

    Passou um louco, montado.Passou um louco, a falarque isto era uma terra grandee que a ia libertar. Passou num macho rosilho.E, sem parar o animal,falava contra o governo,contra as leis de Portugal. Nós somos simples tropeiros,por estes campos a andar.O louco já deve ir longe:mas inda o vemos pelo ar…. Mostrando os montes, diziaque isto […]

  • Retrato (Cecília Meireles)

    Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas;eu não tinha este coraçãoque nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil:— Em […]

  • Ou isto ou aquilo (Cecília Meireles)

    Ou se tem chuva e não se tem sol ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva! Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos […]